Primeiro Ingresso: Em Ritmo de Fuga (Baby Driver)

Edgar Wright é um diretor que, apesar de muito aclamado, têm tido dificuldades em alcançar o público mainstream. Sua trilogia do Cornetto, apesar de ter conquistado uma legião de fãs com o decorrer do tempo, não foi exatamente um sucesso estrondoso de público. Scott Pilgrim Contra o Mundo, seu primeiro grande filme de estúdio, foi um tremendo fracasso de bilheteria, não chegando a sequer pagar seus custos de produção. Homem-Formiga, projeto em que trabalhou por quase 10 anos, estava programado para ser o tão esperado boom do diretor para o grande público mundial, até a Marvel decidir ter “divergências criativas” e tirá-lo do filme.

Mesmo assim, não há como negar que Wright seja um dos diretores mais interessantes da atualidade. Sua direção e roteiro sempre foram extremamente inventivos, divertidos, e o melhor de tudo: originais. Com tudo isso na bagagem, e com o estado atual de Hollywood onde praticamente todos os filme são sequências ou reboots ou universos compartilhados, não é a toa que a expectativa dos fãs e da crítica para o seu novo filme seja tão alta. E fico feliz de dizer que ele não decepcionou.

A patotinha do mal

Em Ritmo de Fuga (ou Baby Driver, ou Bebê Dirigidor, ou A Culpa é das Playlists) conta a história de Baby (Ansel Elgort), um motorista de fuga que sofreu um acidente na infância que acarretou em um problema na sua audição. Para abafar os zumbidos causados por sua condição, Baby passa o tempo todo escutando músicas em seu(s) iPod(s), a ponto de ter uma trilha sonora para tudo o que faz. Baby tem uma dívida com Doc (Kevin Spacey), e trabalha nos assaltos organizados por ele para pagá-la. No filme, Baby só precisar ser o piloto de mais um assalto até sua dívida estar finalmente paga. Ao mesmo tempo ele conhece Deborah (Lily James), a garota pela qual ele se apaixona e planeja fugir junto.

Se essa premissa pareceu um pouco familiar pra você, é porque ela é. Diversos filmes já trataram a história do “cara que só precisa de mais um trabalho pra sair do mundo do crime”. E apesar de fazer homenagens a outros filmes desse estilo, o que diferencia Baby Driver do restante é a sua musicalidade. TUDO no filme é ritmado a partir da música que está tocando no momento, e quase sempre há uma música tocando em Baby Driver. Baby é um personagem que vive ouvindo música, e nós sempre ouvimos o que ele ouve. Todas as cenas são dirigidas e montadas pensando na trilha do momento, o que dá ao filme um clima quase de fantasia. Caso queira ter uma ideia, você pode assistir os 6 minutos iniciais do filme bem aqui (spoilers, obviamente):

A direção desse filme é ABSURDA. Edgar Wright faz um trabalho fantástico, não só trazendo o ritmo pro filme, mas dando fluidez de tal maneira que não deixa você tirar os olhos do filme por um segundo. Sua direção nas cenas de ação, apesar de muito rápida, nunca deixa o espectador confuso. Seus momentos mais parados – em especial, a cena da lavanderia – são sempre fluidas e bem editadas. É um filme visualmente impressionante, mas não só por impressionar. O espetáculo tem uma razão, um motivo pra estar lá, e é surpreendente ver como tudo dentro do filme se encaixa perfeitamente dentro da narrativa.

Narrativa esta que também é muito bem aproveitada por causa de seu elenco. Não há praticamente nenhuma atuação ruim no filme. Ansel Elgort como Baby faz uma excelente performance, sempre na mistura entre assustado e destemido por estar dentro daquele mundo do crime. Ele e Lily James têm uma ótima química, que não parece artificial mesmo sendo quase que forçada no roteiro (mais sobre isso daqui a pouco).  Ele também canta, dança e toca, o que ajuda muito num filme que é praticamente um musical. Kevin Spacey faz o seu melhor Kevin Spacey – o que é mais do que suficiente pra dar ao Doc aquele ar de amigável, porém letal que conhecemos tão bem em Frank Underwood. Jon Hamm, Eiza González, Jamie Foxx e Jon Bernthal também estão excelentes no filme, dando performances energéticas e carismáticas.

Baby e Deborah

O ponto mais fraco de Baby Driver – não que ele seja ruim, mas fica abaixo da média em comparação ao restante – é o roteiro. Ele é muito bem escrito, de forma que basicamente nenhuma cena é desnecessária no filme. Por mais que as vezes não pareça, toda cena tem um ou mais propósitos narrativos que vão ser utilizados ao decorrer do longa. É o tipo de roteiro extremamente amarrado e sempre surpreendente que Edgar Wright costuma escrever (quem viu Chumbo Grosso sabe bem disso), mas que tem detalhes que podem incomodar algumas pessoas.

O filme tem algumas coincidências que pra alguns podem ser meio difíceis de engolir. São o tipo de coincidências que o espectador percebe que, apesar de possíveis, são difíceis demais pra serem verdade. Não é algo que chegou a me incomodar tanto, pois o clima meio musical/fantasioso do filme permite que este tipo de coisa ocorra, mas é algo que talvez pudesse ter sido evitado no roteiro para não causar problemas.

Até os pôsteres são incríveis não é possível

No geral, Em Ritmo de Fuga é um filme quase perfeito. Edgar Wright mais uma vez se superou, não só nos mostrando o que um filme original pode fazer (algo mais do que necessitado nos dias atuais), mas também finalmente trazendo seu primeiro grande hit cinematográfico. Este é facilmente um dos melhores filmes dos últimos anos, consolidando um diretor que já era bom como um dos grandes da atualidade.

Recomendo ver assim que possível nos cinemas, não só porque é uma experiência totalmente diferente, mas também pra podemos discutir onde Baby Driver se encaixa na cronologia Wright.