Primeiro Ingresso: Get Out

Desde os primórdios, o terror sempre teve como destaque seu subtexto de mostrar um medo real da humanidade através da faceta do sobrenatural. Temos a representação do consumismo capitalista dominando a mente humana nas obras de Romero, o medo das consequências de uma guerra nuclear/química em Godzilla, a visão negativa da sociedade sobre a mulher solteira em O Exorcista… E por aí vai. De alguns anos pra cá o terror tem perdido a força do seu subtexto e focado em filmes de apelo visual e baratos jumpscares.
Algumas obras tem se diferenciado desse padrão hollywoodiano quebrando esse clichê e se destacado (como The Babadook, 2014, e The Witch, 2015). E no meio dessa leva temos Get Out.

A história começa quando um namorado aceita o convite de passar o final de semana na casa dos pais de sua namorada. Apesar de ser recebido com um mar de gentilezas e receptividade por parte dos donos ao chegar na casa, ao longo da trama ele começa a se deparar com estranhos acontecimentos que lhe fazem se sentir desconfortável e desconfiar de que algo errado não está certo naquele lugar.

O filme é dirigido e escrito pelo Jordan Peele, que é um comediante, e esse é só eu primeiro filme como diretor. O porque dele escolher o terror como gênero eu não sei, só sei que ele acerta bonito. Ele já abre o filme com um plano sequência tenso mostrando a que veio. Ele estudou muito a regra primordial do cinema “mostre, não fale”.
Consegui identificar diversos momentos onde em qualquer outro filme mais blockbuster a cena seria narrada ao público. Mas aqui o diretor escolhe mostrar cenas, dar planos detalhes e deixar seu público raciocinar, isso é ótimo. Há também os takes fechados no rosto dos atores em momentos de tensão pra você sentir a claustrofobia da personagem diante de do desconhecido. Posso dizer que senti muito de sexto sentido + Hitchkcock nesse filme, tanto pelos pequenos jumpscares quanto pela trilha sonora, mais minimalista com pequenas nuances agudas quando necessário. Daniel Kaluuya dá um bom protagonista, energético e determinado. Você torce por ele, o que ele consegue fazer com os olhos passando horror é incrível, o personagem é nossa visão como se tivesse na situação e pensando “ei o que taacontecendo cadê as câmeras é pegadinha né?”, as vezes meio burro, mas mais por culpa do roteiro do que da atuação. Os pais, interpretados por Catherine Keener e Bradley Whitford, também estão ótimos nos papéis, sempre com ameaças veladas apesar de educados. Eles passam a sensação ameaçadora que os personagens pedem, além do racismo escondido. Gostei muito do Lilrel Howery, ele é quase o Michael Peña do Homem-Formiga nesse filme, apesar dele não ter tanta importância pra historia além de ser um alívio cômico gratuito. Havia cenas em que ele aparecia que eu, como diria um tio do churrasco, ~~rachava o bico~~.

Jordan Peele, o diretor do filme

“Mas tio, então o filme é 100% bom?” Infelizmente não. O filme ainda cai em umas conveniências de roteiro pra salvar seu protagonista no ato final. O terceiro ato dá um bom payoff pro espectador, mas é tão rápido e deixa tantas coisas inacabadas que ficamos com uma sensação de “tá, mas e se…” “ok, mas e aquele outro personagem lá…”. Até o último segundo eu fiquei esperando uma certa reviravolta menos otimista para o protagonista, creio que quem assistir vai entender o que eu quis dizer. Dizer que o terceiro ato foi ruim seria uma grande injustiça, mas também não foi ótimo, e foi onde o filme perdeu a força. A escatologia final me lembrou o ato final de Green Room (2016) mas ainda prefiro o final do segundo.

Ok, dizer o tema principal é subtexto é quase errado. O filme joga logo na sua cara a premissa de tratar o racismo como plot device, mas ainda assim as conversas mais profundas sobre o tema estão lá pra quem procurar. A exemplo de um dialogo onde um personagem claramente racista declara não ser racista pois votou 2 vezes no obama pra presidente, ou o famoso “claro que não somos racistas, tratamos a empregada como se fosse da família”. É bom ver, ainda neste momento de emponderamento racial, uma obra tratando disso e com qualidade, não usado de maneira esdrúxula só jogando na sua cara.

Get Out é um terror psiquiátrico psicológico bom, diferente, com uma boa direção, boas atuações que só comete o erro de se apressar demais no final e cair em conveniências, mas que ainda fecha com um saldo positivo.

Obs: Não assista o trailer se puder evitar. Mostra mais do que deveria.

 

NOTA: 6/7